Tem um poema no meu peito Escondido, ninguém o viu Tem me deixado sem jeito Inquieto e vil
Tem um poema no meu peito Um rascunho estudantil Truncado e com trejeito De poema varonil
Me consome o corpo, a mente Feito vela em seu pavio E eu suspeito estar doente
Como um velho sobre o leito Pois um poema intermitente Vive e morre no meu peito
O lirismo, este senhor de ombros encurvados Já não toca no meu mp3 O lirismo é um louco mal amado Com seus bordões ultrapassados Com sua velha embriaguez
Este senhor feio e malcheiroso Sem endereço ou sobrenome Não tá na lista do meu smartphone Entre os contatos que eu salvei
Mas eu não sou de baixo tom E minhas fotos no Leblon Eu juro, compartilhei
Naquela noite, acomodou a grande mala de cor caramelo na cômoda velha. Escolheu uma roupa quente para dormir e, após utilizar o chuveiro, deitou-se na cama de casal cujo cheiro não representava exatamente o aconchego que julgava merecer. Viu a chuva escorrer pela janela do pequeno quarto de hotel e, a despeito do pouco conforto e mau cheiro, sentiu-se ligeiramente bem. No dia seguinte, haveria de partir logo cedo. E o fez. No caminho para a pequena cidade remoeu as duras palavras de Camila: “preciso de um tempo só pra mim”; lembrou seu olhar de desprezo e pouca consideração por tudo o que já viveram. A moça o expulsara de sua vida abruptamente, com a crueldade legítima das mulheres que se bastam. Não a perdoaria, não mais. Acelerou o carro para aproximar a despedida. Haveria de vê-la pela última vez na cidade aonde se conheceram. Apegou-se ao simbolismo do lugar para então seguir livre, começar uma nova vida sem ela. Ao vê-la, mais tarde, não encontrou palavras. Ficou mudo. Sentiu um misto de raiva e ternura. Despediu-se e não olhou para trás. Saiu da estrada de terra levando consigo a mala caramelo vazia. O coração vazio. Na volta, mais adiante, hospedou-se no mesmo hotel barato. Acomodou a grande mala de cor caramelo na cômoda velha e tomou um banho para livrar-se do cheiro de sua ex. Não queria mais lembrá-la, não mais.
Quanto seres Um único ser É capaz de abrigar?
Uma face oculta De esteta Um mundo secreto De poeta
Quantos universos Um único ser É capaz de criar?
No teu olhar arguto De arcano Eis o multiverso: Soberano
meus ossos não serão zombados em palanque nem minha cabeça servida em bandeja vou embora dessa vida com fineza quem nela não me quer que não me arranque com socos pontapés e infantaria não vale esse presépio o baixo custo de mais e mais um dia!
quem nela não me quer que só me arranque com a minha prévia autorização! que vou embora sem almejar fineza: a cabeça posta na mesa ao lado do coração